Peritos da Polícia Federal vão analisar o barco em que Bruno Pereira e Dom Phillips estavam no dia em que foram executados. O Jornal Nacional teve acesso à reconstituição feita pela PF com um dos assassinos confessos.
Policiais retiraram do porto de Atalaia do Norte o barco em que viajavam o indigenista Bruno Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips. Na quinta-feira (23), peritos da PF vão analisar o barco.
De acordo com a Polícia Federal, na noite da terça-feira passada (14), Amarildo da Costa de Oliveira confessou a participação nos dois assassinatos. No dia seguinte, agentes da PF levaram Amarildo à região onde Bruno e Dom foram mortos.
Os peritos da Polícia Federal registraram as imagens desde a saída da delegacia. Na reconstituição, Amarildo não assumiu a execução do indigenista e do jornalista. Ele responsabilizou outra pessoa: o pescador Jefferson da Silva Lima, que se entregou no fim de semana.
Segundo Amarildo, Bruno e Dom seguiam para Atalaia do Norte quando se encontraram com Jefferson. Ainda segundo Amarildo, Jefferson e Bruno discutiram.
Delegado: Então o Bruno vinha descendo com Dominic na canoa, na voadeira da Unijava, e começou a discutir com o Jefferson, vulgo “Pelado”, foi isso?
Amarildo confirma com a cabeça.
Delegado: Então aí nesse momento ocorreu…
Amarildo: Foi. E aí a baleeira acelerou tanto e entrou aí.
Baleeira é como os pescadores chamam as pequenas embarcações. Na gravação, Amarildo diz que Jefferson da Silva Lima disparou no indigenista.
Delegado: Mas você viu a hora que…
Amarildo: Vi
Delegado: A hora que o Jefferson disparou contra o Bruno.
Amarildo confirma com a cabeça.
Delegado: Então o Bruno acelerou a voadeira e ele disparou contra o Bruno. Foi isso?
Amarildo: Foi. Teve disparo aqui. Ele também atirou conta ele.
Delegado: Teve troca de tiros.
Amarildo: Teve troca de tiros.
Delegado: O Bruno chegou a revidar?
Amarildo: Chegou a revidar.
Delegado: E o Jefferson atirou onde no Bruno? Em que lugar do corpo?
Amarildo: Foi por aqui…pela…atrás.
Amarildo também acusou Jefferson de atirar contra o jornalista britânico.
Delegado: Então o primeiro tiro atingiu o Bruno. Posteriormente, a voadeira desgovernada adentrou esse local onde estão esses galhos e lá dentro o jornalista Dominic foi executado também. Quem atirou contra ele quem foi?
Amarildo: Ele
Delegado: O Jefferson?
Amarildo confirma com a cabeça.
Delegado: O Jefferson vulgo “Pelado”.
Durante a reconstituição, Amarildo mostrou onde escondeu a lancha de Bruno e Dom.
Delegado: Onde foi afundada a lancha? Esse foi o local onde foi fundada a lancha? Você pode apontar?
Amarildo: Bem aqui.
Os agentes também foram até o local onde os suspeitos queimaram os corpos das vítimas.
Delegado: Quem jogou os corpos aqui inicialmente? Você e o Jefferson atearam fogo?
Amarildo confirma com a cabeça.
Delegado: Vocês vieram aqui e atearam fogo aos corpos?
Amarildo confirma com a cabeça.
Segundo a Polícia, no dia seguinte, os criminosos voltaram. Decidiram esquartejar os corpos e enterrar os membros.
Delegado: Primeiro vocês tentaram queimar, não deu certo. Aí levou pra lá. E aí?
Amarildo: Nós “esquartejou”.
Delegado: Esquartejou para facilitar enterrar?
Amarildo: humhum
Na gravação, Amarildo se contradiz. No início, ele afirma que viu a suposta discussão de Bruno e Jefferson à distância. Depois, admite que estava no barco com Jefferson.
Segundo a Polícia Federal, no depoimento dado antes da reconstituição, a versão de Amarildo foi outra. Ele confessou participação nas execuções de Bruno e de Dom, juntamente com Jefferson; que ele e Jefferson dispararam pelo menos seis vezes contra Bruno e Dom, com espingardas de caça. Cada um dos dois disparou pelo menos três vezes e que não sabe quantos tiros acertaram nas vítimas.
Segundo a Polícia Federal, Bruno morreu com três tiros – dois no tórax e um no rosto – e Dom, com um disparo no tórax.
Em seu depoimento, Jefferson assumiu ter atirado no jornalista e no indigenista, mas disse que não se lembrava do número de disparos.
O irmão de Amarildo, Oseney, suspeito de participar dos assassinatos, nega as acusações.
A polícia identificou mais cinco homens que ajudaram a enterrar os corpos na mata. Eles estão indiciados por ocultação de cadáver e vão responder em liberdade. A PF investiga a motivação para os assassinatos.
Por causa do trabalho de fiscalização contra a pesca ilegal em áreas indígenas do Vale do Javari, Bruno recebia muitas ameaças e andava com escolta particular contratada pela Univaja há cerca de dois meses. Segundo representantes da entidade, Bruno dispensou os seguranças no dia em que ele e Dom foram assassinados.
Ainda segundo a entidade, Bruno tinha porte de arma e autorização para trabalhar armado tanto na Funai quanto na Univaja.
Em áudio inédito, ele fala da descoberta da atuação de garimpeiros no Vale do Javari.
“E eu tive informações da Funai de que o garimpo tá no lado do Jarinau. Da aldeia antiga, da aldeia antiga dá para escutar as dragas. A aldeia antiga fica duas voltas abaixo da aldeia nova, onde eles estão, onde os tais garimpeiros tinham ido lá. Então, é pressão. Ou seja, os garimpeiros tão lá. E a informação que a gente tem de outros Kanamari é de que o rio Curaina tá empestado de balsa de garimpo.”
FONTE: Por JORNAL NACIONAL