
Circula pelas redes sociais uma mensagem viral que afirma que o indigenista Bruno Pereira e o repórter Dom Phillips entraram na reserva do Javari juntos sem autorização da Funai. A publicação afirma ainda que Phillips trabalha em uma fundação financiada por Bill Gates. É #FAKE.
A mensagem completa diz: “Repassando. Fiz uma rápida pesquisa para saber melhor quem são os dois personagens desaparecidos na Amazônia. Bruno Araújo Pereira é ex-funcionário da FUNAI, exonerado em 2019 por condutas extremistas e incorretas ao cargo. Esteve envolvido no episódio da queima das balsas há uns meses atrás e tinha vários inimigos na região, não só por questões legais mas também por questões pessoais. Entrou na área de reserva do Javari com o repórter inglês, sem autorização da FUNAI e dos órgãos competentes. Já o inglês Dom Philips… este tem uma outra história, que é a ponta de um iceberg que a esquerda mundial, o PT, PSOL e a mídia farão de tudo para desviar a atenção, pois foi um tiro no pé, tal qual o caso da Mariele. Ele fazia uma reportagem em reservas indígenas, sem autorização legal da FUNAI, do IBAMA e sem o conhecimento dos Governos Estadual e Federal. Ele trabalha para uma “Fundação Internacional de Jornalistas Engajados”, chamada Fundação Alicia Patterson. Procurem no site. Buscando quem financia estas reportagens, quem oferece bolsas, etc … eis que encontrei… ele mesmo: Bill Gates e outros gigantes que querem controlar a mídia e o mundo.”
A Fundação Alicia Patterson afirma que a alegação é falsa. “Esta é uma afirmação falsa. Dom Phillips recebeu uma doação de nossa fundação, que é uma organização de caridade sem fins lucrativos financiada pelas famílias Patterson e Albright em homenagem a Alicia Patterson, que foi fundadora e editora do Newsday. Não temos conexão com nenhum grupo supostamente chamado de “Fundação Internacional de Jornalistas Engajados”. Nossa fundação não recebe dinheiro de Bill Gates ou dos outros que esta mensagem afirma falsamente.”
A Fundação Bill e Melinda Gates também refuta que ele seja doador à Fundação Alicia Patterson.
Sediada em Washington, nos Estados Unidos, a Fundação Alicia Patterson se apresenta como uma instituição que “busca fomentar, promover, sustentar e melhorar as melhores tradições do jornalismo americano e fornece apoio a jornalistas engajados em um trabalho rigoroso, investigativo, espirituoso, independente e cético que beneficie o público”.
O programa da Fundação Alicia Patterson foi estabelecido em 1965 e concede subsídios de até US$ 40 mil a jornalistas que trabalham para buscar projetos independentes e escrever artigos baseados em suas investigações para The APF Reporter, uma revista publicada na web pela Fundação e disponível na web. Os vencedores são escolhidos por um concurso anual.
De acordo com a Fundação Alicia Patterson, Phillips, um cidadão britânico que vive no Brasil desde 2007, é um colaborador frequente do The Guardian. Ele pesquisou as mudanças climáticas e econômicas na Amazônia sob uma doação da Alicia Patterson Foundation em 2021-2022 e estava trabalhando em um livro sobre maneiras realistas de salvar a floresta tropical.
A Fundação Bill e Melinda Gattes se define como uma organização sem fins lucrativos que luta contra a pobreza, doenças e desigualdade em todo o mundo.
Autorização e entrada juntos
A mensagem falsa também erra ao dizer que Bruno Pereira entraram sem autorização e juntos na reserva indígena.
A TV Globo teve acesso a documentos que mostram que a Funai foi comunicada e autorizou a entrada de Bruno Pereira no Vale do Javari entre os dias 17 e 30 de maio. Ele entrou, sem Dom Phillips, no dia 21. A equipe incluía um representante da Univaja, União dos Povos Indígenas do Vale do Javari, e o presidente de uma associação de moradores da região.
A Justiça Federal determinou que a Funai retire do ar uma nota em que diz que são inverídicas as afirmações de que Pereira tinha autorização para entrar na Terra Indígena Vale do Javari, na Amazônia.
Apenas no dia 1º de junho, quando Bruno já havia saído da terra indígena, ele e Dom se encontraram em Atalaia do Norte. Os dois então passaram a viajar juntos. O ponto mais distante a que eles chegaram foi o Lago do Jaburu.
Dispensa de Bruno
Bruno da Cunha Araújo Pereira foi dispensado da função de Coordenador-Geral de Índios Isolados e de Recente Contato da Diretoria de Proteção Territorial da Fundação Nacional do Índio. Servidores do órgão afirmavam na época que havia uma pressão de setores ruralistas ligados ao governo para que Bruno Pereira deixasse a coordenação de índios isolados.
A última grande operação conjunta da Funai, Ibama e da Polícia Federal na terra indígena foi em 2019. Bruno ainda era o coordenador de Índios Isolados. Em várias incursões pelo território, havia ajudado a mapear o crime – o que possibilitou, por exemplo, a destruição de mais de 50 balsas de garimpo no Rio Jutaí.
FONTE: Por G1